Você não precisa se violentar para ser competente
- Marcelle S. Araujo

- há 13 minutos
- 2 min de leitura

Quando dar conta vira uma exigência silenciosa
Muitas mulheres adultas aprenderam, cedo, que ser competente é aguentar.
Aguentar pressão, acúmulo, prazos apertados, autocobrança constante.
Não falhar. Não parar. Não demonstrar cansaço.
Com o tempo, essa lógica deixa de ser apenas profissional e passa a organizar toda a vida. Trabalhar muito vira virtude. Estar exausta vira sinal de comprometimento. Descansar começa a parecer risco.
Mas há um ponto importante que costuma ficar invisível: competência e sofrimento não são sinônimos.
Autoexigência não é o mesmo que comprometimento
Comprometimento envolve responsabilidade, presença e cuidado com o que se faz.
Autoexigência excessiva, por outro lado, costuma vir acompanhada de medo: medo de não ser suficiente, de decepcionar, de perder valor se errar.
Quando essa fronteira se confunde, a pessoa pode até produzir — mas às custas de si mesma.
Alguns sinais dessa confusão aparecem com frequência:
dificuldade em reconhecer limites sem culpa;
sensação de que nunca é o bastante, mesmo quando há resultados;
medo constante de falhar ou ser “descoberta”;
desgaste emocional que não diminui, mesmo quando a rotina se estabiliza.
Nada disso indica falta de capacidade.
Indica um modelo interno que associa valor pessoal à performance contínua.
O custo invisível de “dar conta de tudo”
Sustentar uma vida inteira baseada em esforço máximo tem um preço alto.
O corpo cansa. A mente entra em estado de alerta constante. O prazer vai sendo adiado. A vida fica funcional, mas pouco habitável.
Muitas mulheres só percebem esse custo quando o esgotamento já está instalado — e, ainda assim, tendem a se cobrar por “não estarem dando conta”.
É aqui que a pergunta precisa mudar:
não é “por que eu não aguento mais?”,
mas “por que eu aprendi que precisava aguentar tudo?”.
Como a terapia pode ajudar nesse processo
A psicoterapia não ensina a produzir mais, nem a suportar melhor a sobrecarga.
Ela ajuda a rever as crenças que fazem do sofrimento uma condição para existir, pertencer ou ser reconhecida.
No processo terapêutico, é possível:
diferenciar responsabilidade de autoexploração;
reconhecer limites sem vivenciá-los como fracasso;
construir formas mais sustentáveis de se relacionar com o trabalho e com a própria exigência;
desenvolver uma noção de competência que inclua cuidado, e não violência interna.
Não se trata de abrir mão do que é importante para você.
Trata-se de não precisar se machucar para continuar sendo quem você é.
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