O cansaço que reaparece quando tudo já deveria estar andando
- Marcelle S. Araujo

- há 14 minutos
- 3 min de leitura

Existe um momento do ano em que o cansaço volta — não porque algo deu errado, mas justamente porque a rotina começou a se estabilizar.
No início, há um certo fôlego emocional. Janeiro costuma vir acompanhado de reorganização, promessas silenciosas, tentativas de fazer diferente. Mesmo cansada, a pessoa ainda está sustentada por intenção.
Mas, quando a vida retoma seu ritmo real — horários, cobranças, demandas constantes — o corpo e a mente começam a responder.
E aí surge uma pergunta difícil:
“Por que eu já estou cansada de novo?”
Essa pergunta, quase sempre, vem acompanhada de culpa.
A ideia de que o cansaço revela fraqueza, despreparo ou falta de força emocional.
Como se sentir exausta significasse não ter conseguido “segurar” o ano.
Mas o que aparece nesse momento não é falha.
É consequência.
O cansaço que reaparece não nasce agora
Esse cansaço que retorna em fevereiro, muitas vezes, não começou ali.
Ele é o resultado de um acúmulo silencioso: meses — às vezes anos — de exigência constante, responsabilidade excessiva e pouco espaço para apoio real.
Durante o início do ano, a intenção organiza.
Mas intenção não substitui sustentação.
Quando a rotina se estabiliza, o que estava sendo mantido à base de esforço começa a pesar. E o corpo, que não negocia com discursos motivacionais, responde.
O cansaço reaparece porque o ritmo interno não acompanhou o ritmo externo.
Não é falta de força. É excesso de exigência.
Muitas mulheres chegam a esse ponto acreditando que o problema é não estarem sendo fortes o suficiente.
Mas, na clínica, o que aparece com frequência é o oposto: são pessoas que sustentam demais.
Sustentam trabalho, relações, expectativas, decisões.
Sustentam emocionalmente o que ninguém vê.
Sustentam até o próprio cansaço, tentando não incomodar.
O desgaste não vem da falta de capacidade, mas da ausência de apoio.
E aqui é importante nomear algo com clareza: força não é um recurso infinito.
Quando tudo depende dela, o colapso não é uma possibilidade distante — é uma resposta previsível.
Quando a rotina volta, o corpo fala
A estabilização da rotina exige constância.
E constância cobra um preço quando não há espaço para pausa, divisão de peso e cuidado emocional.
É comum que, nesse período, apareçam sinais como:
dificuldade de concentração,
sensação de estar sempre atrasada,
irritabilidade sem motivo claro,
vontade constante de parar, mesmo “sem razão objetiva”.
Esses sinais não indicam desorganização pessoal.
Eles indicam que algo está sendo sustentado sozinho por tempo demais.
Cansaço não é atraso
Um dos efeitos mais duros desse momento é a comparação.
A sensação de que todo mundo seguiu em frente, enquanto você parece ter ficado para trás.
Mas cansaço não é atraso.
É sinal de que o caminho foi percorrido sob custo alto.
Quando alguém diz “eu não deveria estar assim”, geralmente está ignorando tudo o que precisou suportar para chegar até aqui.
O que esse cansaço pede?
Nem sempre o cansaço pede mudança radical.
Às vezes, ele pede reconhecimento.
Reconhecer que o problema não está em sentir, mas em sustentar tudo sozinha.
Reconhecer que responsabilidade sem apoio vira peso.
Reconhecer que seguir em frente exige mais do que força — exige sustentação emocional.
A terapia, nesse contexto, não aparece como correção, nem como promessa de virada rápida.
Ela aparece como espaço onde o esforço deixa de ser invisível.
Onde o cansaço pode ser escutado, em vez de combatido.
Porque quando o cansaço reaparece, ele não está pedindo mais cobrança.
Ele está pedindo outra forma de seguir.
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