Quando dar conta de tudo deixa de ser força e vira peso
- Marcelle S. Araujo

- há 15 horas
- 2 min de leitura

Existe um momento em que “dar conta” deixa de ser apenas uma capacidade prática e passa a se tornar um modo de existir.
Não é algo que acontece de forma consciente.
Aos poucos, ser responsável, madura e competente vai se confundindo com sustentar tudo sozinha — sem pausa, sem apoio, sem espaço para falhar.
Muitas mulheres chegam à vida adulta acreditando que maturidade significa não precisar de ninguém.
E, sem perceber, transformam a sobrecarga em identidade.
Quando dar conta vira identidade
Em algum ponto da história pessoal, “dar conta” deixa de ser uma ação e passa a ser quem a pessoa é.
Ela é aquela que resolve.
Que aguenta.
Que não reclama.
Que se adapta.
E justamente por isso, o excesso raramente é questionado.
Quando alguém pergunta se está pesado demais, a resposta costuma vir rápida:
“Não, está tudo bem. Eu dou conta.”
Mas dar conta não significa, necessariamente, estar bem.
Significa apenas que a vida continua funcionando — mesmo que às custas de exaustão emocional.
A sobrecarga que se torna invisível
Um dos efeitos mais silenciosos desse padrão é que a própria pessoa deixa de perceber o quanto está carregando.
A sobrecarga não aparece como colapso imediato.
Ela se instala como normalidade.
Virar noites resolvendo pendências.
Assumir responsabilidades que não eram suas.
Sustentar emocionalmente pessoas, contextos e decisões sozinha.
Com o tempo, o corpo até sinaliza — mas esses sinais são minimizados.
Cansaço vira “fase”.
Irritação vira “falta de paciência”.
Vontade de parar vira “fraqueza”.
Quando pedir ajuda parece fraqueza
Para quem aprendeu a dar conta de tudo, pedir ajuda não é simples.
Não porque não precise, mas porque isso costuma tocar em algo mais profundo:
o medo de parecer incapaz, imatura ou insuficiente.
Dividir o peso pode soar como desistência.
Como se admitir limites colocasse em risco a própria identidade.
E assim, muitas mulheres seguem sustentando mais do que podem — não por escolha consciente, mas por não enxergarem outra forma de existir.
Dar conta de tudo não é saúde emocional
Existe uma diferença importante entre responsabilidade e sobrecarga.
Responsabilidade organiza a vida.
Sobrecarga esgota.
Quando tudo depende da sua força, da sua vigilância e da sua capacidade de adaptação, o equilíbrio emocional fica comprometido — mesmo que, externamente, tudo pareça sob controle.
Dar conta de tudo não é sinal de maturidade emocional.
Muitas vezes, é sinal de ausência de apoio.
Dividir o peso é habilidade, não falha
Aprender a dividir o peso — interno e externo — não é perder competência.
É desenvolver uma habilidade emocional fundamental: reconhecer limites antes que o corpo precise gritar.
Dividir não significa abandonar responsabilidades.
Significa não precisar sustentar tudo sozinha para continuar valendo.
Esse aprendizado não acontece de forma imediata.
Ele exige revisão de crenças, cuidado e, muitas vezes, um espaço onde a sobrecarga possa ser nomeada sem julgamento.
Quando a terapia entra nesse processo
Nesse contexto, a terapia não aparece como correção nem como promessa de virada rápida.
Ela aparece como espaço de reorganização.
Onde o esforço deixa de ser invisível.
Onde a exaustão não precisa ser justificada.
Um espaço onde “dar conta” pode ser revisto — não como exigência, mas como escolha mais consciente.
Porque sustentar a vida exige mais do que força.
Exige apoio.
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